
Governo e imprensa, assim como Dom Quixote, lutam bravamente contra inimigos que só existem na imaginação.
Se Cervantes tivesse nascido em Brasília, Dom Quixote seria colunista de economia. Empunharia sua pena contra o “mercado opressor”, o “capital especulativo” e o “dólar nervoso”, sem jamais perceber que, enquanto imagina lutar contra gigantes, está apenas atacando os moinhos (engrenagens) que giram com o vento da realidade.
Na verdade, esse tão personificado mercado, que não é mau nem bom, consiste apenas de uma multidão de pessoas tentando sobreviver racionalmente num país que insiste em tratá-las como suspeitas.
Vamos entrar na fantasia: diante de tanta desconfiança, é até compreensível que esse gigante acorde nervoso, especialmente quando percebe que, mais uma vez, será o personagem do romance.
Os moinhos do mercado
No Brasil, o mercado é um sujeito inquieto. Acorda estressado, almoça confiante, dorme apreensivo. Às vezes, castiga. Noutras, pune. E, quando está de bom humor, até “comemora”. Ninguém jamais o viu, mas todos garantem saber o que ele quer. É o personagem invisível mais citado nas redações brasileiras e, curiosamente, o mais mal compreendido.
Nosso noticiário econômico, não raro, lembra o cavaleiro de Cervantes: corajoso, moralmente convicto e… completamente equivocado sobre a natureza de seus adversários. O resultado muitas vezes: confusão, mal entendidos e quase nenhum pedido de desculpas ou retratação.
A ilusão do general invisível
Como a maior parte dos jornalistas brasileiros é de esquerda ou centro-esquerda (81%, segundo o projeto Perfil do Jornalista Brasileiro – UFSC, RETIJ e SBPJOR*), podemos entender que isso se dá, pois essa maioria carregaria consigo tradições intelectuais e crenças de mundo mais baseadas em modelos hierárquicos de poder. Ou seja, suas visões tendem a ignorar ou recusar uma percepção descentralizada e distribuída do cotidiano, por assim julgar caótico, desorganizado ou injusto.
Por consequência, enxergam a organização das coisas, geralmente em estruturas centralizadas, o que sugere que tudo é sempre comandado por alguém: um vilão ou herói no topo da pirâmide. Está personificado aí o nosso gigante.
Assim, quando o dólar sobe, a culpa não é da política fiscal, nem do déficit público, nem da incerteza jurídica: é do “mercado”, esse general invisível que conspira contra o nobre povo de la Mancha.
O problema é que o mercado não é uma pessoa, muito menos uma organização secreta. É um processo, um grande bazar de decisões individuais, onde milhões de pessoas, cada uma com seus próprios interesses e humores, ajustam o preço das coisas. Tentar achar uma vontade unificada nisso é como culpar o vento por mover o moinho.
Mas, para quem vê o mundo como uma escada de poder, essa ideia de descentralização é quase ofensiva. Se não há ninguém mandando, quem seria o culpado? E se não há culpado, como escrever a manchete?
A parceria entre o mensageiro e o príncipe
A história fica mais interessante quando se percebe que essa confusão é útil. A imprensa brasileira, cuja saúde financeira depende historicamente do maior anunciante do país — o governo —, encontrou na demonização do mercado um excelente expediente retórico.
Transformar o mercado em inimigo externo é uma forma elegante de ajudar o governo a justificar seus erros. É um vilão perfeito: não tem rosto, não dá entrevista e, principalmente, não responde processo. Assim, cada tropeço fiscal vira resistência dos “especuladores”, e cada desvalorização cambial é culpa das “forças da Faria Lima”, essa entidade tão abstrata quanto o “espírito do povo”, mas com a vantagem de ser mais conveniente em termos políticos.
É uma narrativa de manual: cria-se o monstro, ataca-se o monstro e, de quebra, propõe-se mais intervenção estatal para “proteger o país” do monstro. O ciclo se retroalimenta com eficiência admirável. Dom Quixote ficaria orgulhoso: o dragão imaginário é derrotado todos os dias, e, no dia seguinte, renasce para justificar mais uma aventura.
Um mercado que respira por aparelhos
Também é verdade que o nosso mercado não ajuda a melhorar sua própria reputação. Reprimido, hiper-regulado e monopolizado, o capitalismo brasileiro parece um atleta que treina com o pulmão pela metade. Poucos players, muita concentração e ainda mais burocracia. Em tal ambiente de capitalismo distorcido, o mercado lembra, na verdade, um clube fechado, mas não por natureza e sim por imposição.
Nos Estados Unidos, o mesmo mercado é bem menos esquizofrênico, formado por uma rede poderosa e mais homogênea de indivíduos. Aqui, é um coquetel privado com lista restrita. Lá, milhões de investidores pequenos e fundos concorrendo por centavos tornam o sistema fluido, “vasocomunicante” e, por consequência, mais saudável e democrático. No Brasil, os fluxos são dominados por alguns poucos gigantes, e o resto do país observa de fora, resmungando sobre a ganância dos grandes. Nossas baleias nos despertam a mesma paranoia que Moby Dick causa ao Capitão Ahab, mas falemos de um romance por vez.
A ideologia do desconhecimento
A maioria dos brasileiros não investe em ações, não tem títulos privados, não acompanha índices de mercado. Para o cidadão médio, “Ibovespa” soa mais como nome de repartição pública do que de indicador. Assim, o mercado vira um conceito distante e, de certa forma, como mais um órgão superior e central, algo que existe nos telejornais, mas não na vida real.
No mercado americano, por contraste, a oscilação da bolsa mexe com o humor nacional: aposentadorias, fundos de pensão e poupanças dependem disso. Aqui, a flutuação dos ativos no curto prazo, afeta mais as manchetes do que os bolsos. E onde não há experiência direta, sobram as narrativas.
Gigantes por todos os lados: o mito nacional do inimigo invisível
O “mercado”, portanto, cumpre no imaginário brasileiro o mesmo papel que o “imperialismo” cumpria nas décadas de 60 e 70: é o vilão que justifica tudo. Serve para explicar a inflação, o desemprego, o dólar alto e até as mudanças climáticas, se for preciso. De quebra, dá à imprensa e ao governo um alvo comum, algo que sempre os ajuda a manter boas interrelações comerciais e ideológicas.
O mercado é o verdadeiro herói
No século XVII, pouco depois da morte de Miguel de Cervantes, a Holanda criara as Companhias das Índias Orientais e Ocidentais (as primeiras empresas de capital aberto da história, sustentadas por milhares de acionistas individuais). Logo, o princípio da descentralização financeira já se mostrava superior aos monopólios estatais das coroas ibéricas. Enquanto os Países Baixos prosperavam sob um modelo de capital disperso e responsabilidade compartilhada, Portugal e Espanha, terra do decadente fidalgo Dom Quixote, insistiam em suas Casas de Comércio (Casa de Guiné, Casa da Índia e de Angola e a Casa de Contratación de Sevilha), entes burocráticos, todos rigidamente controlados pelo rei, com monopólios estatais que sufocavam a iniciativa privada dessa frutífera época de expansão do comércio marítimo internacional.
O resultado é conhecido: de um lado, a Holanda inventava a bolsa de valores moderna e um modelo de governança quase republicano no comércio; de outro, os impérios ibéricos se afogavam no ouro das colônias, mas terminavam endividados e politicamente autoritários. Em suma, o capital descentralizado produziu riqueza e liberdade; o capital centralizado produziu dependência e propaganda. Nós brasileiros, infelizmente herdamos mais da segunda tradição do que da primeira.
Em última instância, o mercado (quando em sua forma mais líquida, homogênea e transparente) é a expressão mais pura da democracia moderna e não deve ser confundido de forma alguma com o vilão desse romance. Nenhuma assembleia, nenhum plebiscito, nenhum parlamento traduz de modo tão imediato a vontade e o sentimento coletivo quanto o sobe e desce de um ativo. Em um mercado são, cada investidor, por menor que seja, vota com o próprio dinheiro, e o resultado aparece em tempo real, sem mediação, censura ou retórica. É o sufrágio universal dos preços, a serviço da aventura de todo e cada um dos cavaleiros dessa nossa história. Não ajamos como loucos!
Referência:
MICK, Jacques; LIMA, Samuel (coords.). Perfil do jornalista brasileiro: características demográficas, políticas e do trabalho de quem informa o país. Florianópolis: Insular; Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), 2021. Disponível em: https://perfildojornalista.ufsc.br/. Acesso em: 25 out. 2025.